Sintomas: como identificar?

Embora seja um campo de estudo recente, muita coisa evoluiu no modo como se pensa a relação das pessoas com as novas tecnologias, inclusive na maneira de se identificar os problemas decorrentes dessa relação. Ainda não existe um consenso sobre quais os melhores critérios para se definir dependência de Internet. Abaixo mostraremos as quatro tentativas de definição mais importantes até o momento.


A primeira definição
A expressão “Dependência de Internet” foi criada em 1995 por Ivan Goldberg, mas foi Kimberly Young quem mais pesquisou o tema e, em 1996, propôs os primeiros critérios para o diagnóstico dessa condição. De acordo com esses critérios, era considerado dependente de internet quem apresentasse cinco dos oito sintomas listados abaixo:
– Preocupação excessiva com a internet
– Necessidade de aumentar o tempo conectado (online) para ter a mesma satisfação
– Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet
– Presença de irritabilidade ou depressão
– Quando o uso da internet é restringido, apresenta labilidade emocional (internet como forma de regulação emocional)
– Permanecer mais tempo conectado (online) do que o programado
– Trabalho e relações sociais em risco pelo uso excessivo
– Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas online


Os primeiros critérios para jogos
Também em 1996, Mark Griffiths publica os primeiros critérios de Dependência de Jogos Eletrônicos. Para ser considerada dependente de jogos, a pessoa teria que apresentar os seis sintomas abaixo:

– Saliência:
Quando o jogo se torna a atividade mais importante da vida do indivíduo, dominando seus pensamentos (saliência cognitiva) e comportamentos (saliência comportamental)

– Modificação de humor/euforia:
Experiência subjetiva de prazer, euforia ou mesmo de alívio de ansiedade relatada pelo jogador

– Tolerância:
Necessidade de jogar por períodos cada vez maiores para atingir a mesma modificação de humor

– Abstinência:
Estados emocionais e físicos desconfortáveis quando ocorre descontinuação ou redução súbita do jogo (intencional ou forçada)

– Conflito:
Pode ser entre o jogador e as pessoas próximas (conflito interpessoal),  com outras atividades (trabalho, escola, vida social, prática de esportes, etc.), ou mesmo do indivíduo com ele mesmo – relacionado ao fato de estar jogando excessivamente (conflito intrapsíquico)

– Recaída/restabelecimento:

Tendência de retornar rapidamente ao padrão anterior de jogo excessivo após períodos de abstinência ou controle


Refinando o diagnóstico
Em 2008, Jerald Block propôs que a Dependência de Internet seria caracterizada por quatro componentes principais:

– Uso intenso:
Geralmente associado à perda da noção de tempo ou mesmo negligência de atividades importantes

– Tolerância:
Compreendida como necessidade de utilizar a internet por um número cada vez maior de horas

– Abstinência:
Inclui irritabilidade, tensão e até mesmo sintomas depressivos quando o acesso à rede não é possível

– Prejuízo significativo em áreas importantes da vida (acadêmico, profissional, social, familiar, financeiro ou legal)


A proposta mais recente
Em 2010, o psiquiatra chinês Ran Tao fez a primeira tentativa de operacionalização dos critérios diagnósticos de Dependência de Internet, estabelecendo uma maior importância para alguns sintomas e acrescentando critérios de exclusão, de duração e de prejuízo:

Critério A – Sintomas

Ambos os sintomas abaixo devem estar presentes:
– Preocupação com a internet (fica pensando na última atividade e antecipando a próxima)
– Abstinência (humor alterado, ansiedade, irritabilidade e tédio depois de alguns dias sem internet)

E pelo menos um dos sintomas abaixo:
– Tolerância (aumento significativo do tempo de uso da internet para ter prazer)
– Desejo persistente e/ou tentativas sem sucesso de controlar, diminuir ou descontinuar o uso da internet
– Manutenção do uso apesar do reconhecimento de ter um problema físico ou emocional causado ou agravado pelo uso da internet
– Perda de outros interesses, hobbies e outras diversões em decorrência do uso da internet
– Uso da internet para escapar dos problemas ou aliviar humor disfórico (ex: sentimentos de desesperança, culpa, ansiedade)

Critério B – Exclusão

O uso excessivo de internet não é melhor explicado por um transtorno psicótico ou transtorno de humor bipolar tipo 1

Critério C – Prejuízo significativo

Prejuízo funcional (piora no rendimento e na capacidade social, acadêmica e de trabalho), incluindo perda de relacionamento importante, emprego, oportunidade importante de ensino ou carreira

Critério D – Curso

A duração da dependência de internet deve ter persistido por mais de 3 meses, com uso de no mínimo 6 horas diárias (em atividades não relacionadas a estudo ou trabalho).

Na prática clínica
Enquanto não se chega a um consenso sobre quais critérios devem/podem ser universalmente utilizados, costumamos valorizar bastante a presença de prejuízo significativo na vida do indivíduo (acadêmico, social, familiar, etc.) como um dos principais marcadores desse transtorno. Esse enfoque, embora não tente explicar o motivo do uso problemático, permite ao terapeuta maior liberdade para formular uma compreensão diagnóstica e um plano terapêutico específicos para cada paciente.